Aeróbico em Jejum. Vale mesmo a pena?

O emagrecimento é sem dúvida um dos principais objetivos das pessoas que iniciam a pratica regular de exercícios físicos. Mesmo os que não estão obesos ou com sobrepeso por vezes recorrem a alguma estratégia para eliminar gordura e ficar com o corpo “definido”. Uma das estratégias mais polêmicas é o chamado aeróbio em jejum (AEJ), também conhecido pelo termo “aerobiose”. Pode-se ver uma enxurrada de tags que inundou as redes sociais, com pessoas postando as mais diversas imagens realizando e incentivando essa prática.

As recomendações podem variar, mas existe um protocolo facilmente encontrado na internet que indica a realização de exercícios aeróbios contínuos, de intensidade leve a moderada, com duração de 20 a 60 minutos. Os praticantes sugerem a realização dessa atividade pela manhã, assim que acordar. A ideia seria aproveitar as baixas reservas de glicogênio após uma noite de sono. Com os estoques de glicogênio comprometidos pelo jejum noturno, nosso corpo priorizaria a oxidação de gorduras no fornecimento de energia para essa atividade.

A ideia por trás do conceito do AEJ/aerobiose se baseia na dinâmica da utilização de substratos (carboidrato, gordura e proteína) para fornecimento de energia durante o exercício físico, a chamada abordagem metabólica.

Apesar de se falar em Aeróbio em Jejum, muitas vezes são ingeridos alguns suplementos antes da realização dessa atividade no intuito de prevenir a perda de massa muscular. Para compreender onde reside a incoerência dessa prática, é preciso lembrar que a glicose é fundamental para o bom funcionamento do nosso corpo. O cérebro, por exemplo, só funciona na sua presença. Quando passamos muito tempo sem nos alimentar, a glicose sanguínea (glicemia) pode cair bastante, instaurando um quadro conhecido por hipoglicemia. Dores de cabeça, tontura, enjoo, náuseas, escurecimento da vista, desmaio e, em casos extremos, coma seguido de morte, são consequências da falta de glicose no sangue. Como os estoques de glicogênio estão comprometidos pelo jejum, nosso organismo vai tentar de todas as maneiras produzir glicose e evitar as complicações causadas pela sua baixa disponibilidade.

Para nossa sorte, a glicose pode ser sintetizada a partir das gorduras (triacilglicerol) e das proteínas (aminoácidos), processo chamado gliconeogênese.

Como a perda de proteínas nem sempre é um resultado desejável, algumas pessoas sugerem a ingestão de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) e/ou Glutamina cerca de 30 minutos antes de iniciar o AEJ. A ideia é prover um fornecimento exógeno de substratos para a via gliconeogênica, e evitar a utilização dos aminoácidos que compõem a massa muscular (proteólise).

No entanto, a ingestão de aminoácidos numa situação de jejum e esforço, como as vivenciadas durante o AEJ, só surtirá o efeito desejado (poupar proteínas) se os aminoácidos forem convertidos em glicose. Assim, os aminoácidos, que possuem valores de comercio muito mais elevados do que os carboidratos, serão convertidos em glicose pelo nosso organismo. Sendo que pra evitar a proteólise bastaria realizar uma refeição leve no café da manhã, de modo a fornecer quantidades satisfatórias de carboidratos, excelente poupador de proteínas.

Outra incoerência observada na prática do AEJ é a definição de jejum. A ingestão de aminoácidos caracteriza a “quebra” do jejum. Afinal, jejum significa inanição, ausência total de ingestão calórica por um determinado período. Nesse caso o termo correto não seria “Aeróbio em Jejum”. Seria aeróbio em Low Carb.

Mesmo quando o Jejum é real (sem ingestão de aminoácidos), os resultados das pesquisas não apoiam essa prática. Estudos verificaram a diferença no metabolismo das gorduras durante um exercício aeróbio moderado (36min/65%FC) na esteira pela manhã em duas situações: 1) alimentado e 2) Jejum (Jejum de verdade, inanição total). Doze horas após o exercício, o grupo que se alimentou continuava com o VO2máx elevado, enquanto o quociente respiratório reduziu significativamente, indicando maior utilização de gorduras na situação alimentado, mas não quando o exercícios era realizado em jejum. E 24hs após o exercício, a diferença ainda era significativa, com maior gasto energético e de gordura para quem se alimentou antes do exercício. Assim, concluiu-se que o exercício aeróbio moderado, para perda de peso, realizado em JEJUM, não aumenta a oxidação de Gorduras e uma refeição leve é aconselhável.

O jejum também não se mostrou superior mesmo após seis semanas de Treinamento Intervalado de Alta Intensidade (HIIT) em mulheres obesas ou com sobrepeso. Ou seja, não é o estado de jejum que favorece a oxidação de Gorduras, como muitos acreditam, mas a intensidade do exercício. 

Portanto, podemos concluir que a prática do AEJ não tem apoio em artigos científicos e está presa ao paradigma de que para emagrecer é preciso oxidar gorduras durante o exercício (abordagem metabólica). Na realidade, estratégias para emagrecimento, devem envolver treinamento de força com exercícios resistidos associados a protocolos de treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT), que estimulam a elevação da Taxa Metabólica de Repouso e mantém a oxidação de gorduras elevada, mesmo horas após sua execução.

Rafael Rodrigues de Faria

Profissional de Educação Física

CREF: 011028 G/MG

1 comentário


  1. Grande post Rafael,
    queima de gordura através de exercícios é muito bom.
    Mas eu não comprar a idéia de usar algum tipo de droga para queimar gordura.
    A maioria dos medicamentos tem efeitos colaterais ruins.

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