O Cliente Compulsivo e a Reeducação Alimentar

Temos observado que, ao engordarmos, estamos iniciando o nosso adoecer e desenvolvendo uma forma especial de ser, de relacionar-se consigo mesmo e com o mundo.

 Como a gordura é apenas o sintoma físico aparente de um distúrbio também psicológico, a doença confere ao Comedor Compulsivo traços que o identificam, traços que são criados por ele como mecanismos de defesa neuróticos.

Será que os compulsivo são FRACOS?

Parecemos fracos e até acreditamos que somos fracos. Nós nos sentimos assim porque pensamos que o controle da compulsão para comer depende de força de vontade.  Não é uma questão de fraqueza, mas de não saber como e aonde ir, uma vez que os caminhos, até então percorridos, nos apontam apenas para o fracasso.

Pecadores, culpados?

Estamos praticando um dos “Sete Pecados Capitais”, a gula; o que nos enche de vergonha e culpa. Mas, se estamos praticando um crime, este é exclusivamente contra nós por tanto sofrimento que causamos a nós mesmos.

Não desejamos esta situação, por isso é necessário parar e questionar onde está a falha também no acompanhamento afinal apontar insucesso do Comedor Compulsivo, não é  em absoluto encontrar a resolução para a dificuldade.

Então é preciso repensar na forma como lidamos não simplesmente com a compulsão alimentar, mas sim com o indivíduo compulsivo em sua singularidade. Pois do contrário  acabamos nos sentindo pior, uma vez que se tem o tratamento para a compulsão e não para o compulsivo.

Desleixados?

É o reflexo de uma autoestima muito baixa! A imagem que fazemos de nós mesmos é sempre desvalorizada, negativa, feia, inferior. Tudo o mais é muito difícil, cansativo. Não sabemos como cuidar de nós, da nossa doença; e muitos de nós, nem sabemos que estamos  doentes.

Preguiçosos?

É mais uma conseqüência da doença. Cansados, excessivamente pesados, não acreditamos mais em nós mesmos. Sentindo-nos incapazes de qualquer ação transformadora; estamos fracos, derrotados, incompetentes, não tão bons, feios, prejudicados na inteligência, atenção e concentração, assexuados, humilhados e com vergonha. Além de uma desconfiança paranóica, cremos (e muitas vezes é verdade) estar sendo motivo de fofocas e falatórios, deboche e divertimento para outras pessoas.

Simpático?

Para nós essa simpatia está bem mais próxima de um distúrbio psiquiátrico que é a “obnubilação da consciência”, uma relação nublada com a realidade. A realidade fica engordurada, embaçada, não havendo clareza suficiente para ver e compreender o que se passa à nossa volta. Essa simpatia confunde-se ainda com uma ingenuidade patética, fazendo-nos bem mais servis; e não possuidores de carisma e autoestima, que se faça respeitar e admirar.

Bonzinho?

Essa característica se confunde com “câmera lenta”: está sempre naquela de “Ah, é…E?!!!” Está sempre atrasado e nem percebe que está sendo magoado, agredido ou ofendido.

E se o percebe ainda é ele quem pede desculpas! O bonzinho é aquele; que não pode dizer “NAO”, pois tem que agradar a gregos e a troianos, caso contrário morre de culpa.

Ficar com raiva? Nunca! Seria quase um sacrilégio! A maioria de nós não sabe nem identificar a raiva entre os seus sentimentos. A raiva é um sentimento de quem tem autoestima bastante adequada.

Sultão?

Odeia esportes, por isso fica ainda mais gordo e, uma vez mais gordo, acaba se afastando dos exercícios físicos.

Como um sultão prefere ficar deitado no sofá ou em almofadas, abanado por odaliscas, recebendo uvas na boca e dando ordens a todos que estiverem por perto: “Atenda ao telefone, atenda à campainha, pega água pra mim, descasca uma laranja pra mim? Ligue para o tele-pizza, cadê o meu sapato?, cadê as chaves?”

Falastrão?

Sem medidas pra tudo, faltam-lhe referências do que será necessário, quanto, quando, para quê e por quê. E um falar sem reflexão, sem conteúdo, sem ponto e vírgula, sem destino. A maioria fala compulsivamente. O “falastrão” tem imensa dificuldade em ouvir o que o outro está falando – sua maior tortura é conversar com alguém que fale tanto ou mais que ele.

Colecionador, bagunceiro?

Temos uma grande dificuldade em nos organizar em todos os aspectos, no tempo e no espaço. No escritório, a mesa é o caos. E o armário? É genial, não dá pra entender como cabe tanta coisa, é simplesmente entupido! É tão empanturrado quanto o próprio comedor compulsivo.

O que é importante é ir acumulando coisas sem nem ao menos saber se vai ou não usar. O que importa é engolir muito de tudo, numa tentativa simbólica de conseguir a saciedade.

Acabamos tendo muito de tudo e se desfazer ou “emagrecer” dos excessos de roupas, sapatos, caixinhas, saquinhos, embondos é uma enorme dificuldade.

Nossos armários são bocas e estômagos complementares. A casa é toda entulhada, como se fosse de um colecionador. E o quintal? É aquela bagunça! Entulhado de coisas que “quem sabe pode vir a precisar algum dia”. Enfim, onde existe um comedor compulsivo existe exagero, ou a perda de todas as medidas e referências de quantidade!

E no supermercado?

Alguns, em virtude das facilidades atuais, compram tudo por telefone sem ver a qualidade do que estão comprando. Confiam no vendedor.

No supermercado, atrás deles existe uma fila de carrinhos. Os produtos escolhidos são típicos: bacon, presunto, lingüiça, maionese, manteiga de leite… Todo tipo de guloseimas que vêm em pacotes (que além de gordura, sal e corante não têm, mais nada), doces, sorvetes, bolachas… Aos montes!

Sua voracidade não é apenas pela comida. É por tudo o que se possa imaginar. Para ele tudo é pouco. Fica sempre com muito medo das coisas não serem suficientes. Lidar com a falta, frustração, adiamento é simplesmente insuportável. É a morte. Sua carência é tão descomunal que o “um” não existe, nunca é o bastante!

Imediatista? .

Esperar nunca, jamais, é insuportável! O comedor compulsivo usa a sua carinha de bonzinho para fugir das filas. Ele está sempre comendo cru por não saber aguardar o tempo das pessoas ou o amadurecimento das idéias, sentimentos ou situações.

Antecipa-se a tudo e a todos impulsivamente, como traço de personalidade infantil. Em alguns, isso é tão forte que chega a ser um sério obstáculo à sua recuperação, pois ele quer pra ontem, hoje já não serve.

Ele quer mágica, daí o fato de estar sempre procurando um milagre que o faça deitar gordo e acordar magro. Está sempre só, pois afugenta, assusta os possíveis parceiros com a sua voracidade e tirania e, por outro lado, tem pavor de solidão!

Desonesto?

Talvez seja a nossa característica mais complicada, mais difícil de trabalhar. Somos desonestos e dissimulados, como mecanismo de defesa.

No que diz respeito à dieta, é aquela carinha de gordinho simpático que fala ao nutricionista: “Não sei como não emagreci o esperado (ou por que engordei), fiz tudo tão certinho…” e tenta torcer os fatos para que o nutricionista perca bastante tempo pesquisando o que há de errado com o seu metabolismo; com isso ele vai engordando, engordando. Ele está recaído e não admite. Não há nada de errado com o seu metabolismo.

Idéia fixa?

Se você convidar um comedor compulsivo para um passeio, a primeira coisa que ele quer saber é sobre a comida: “Como vai ser? O que vai ser feito? Quem vai fazer?” Ele até se oferece para comprar e cozinhar (em geral são bons gourmets ou excelentes cozinheiros), assim ele garante a sua comilança e o direito de comer mais que todo mundo.

Dependente?

Ele torna-se um especialista em dar ordens, fazer com que os outros façam por ele e para ele: “Pega um copo d” água pra mim, busca o meu casaco, onde estão as minhas chaves? “Leva-me, me busca…”

Vai se desenvolvendo uma doença familiar que, além do envolvimento emocional neurótico – a co-dependência, todos passam a viver apenas para servi-lo ele perde toda a autonomia na vida, abre mão de um dos nossos direitos mais sagrados: O direito de ir e vir.

O comedor compulsivo não vai e volta, ele é levado e trazido. Se ficar sem carro, o mundo vem abaixo. Ele não sai do lugar. Fica mal humorado, briga e chantageia.

Carente?

Carente, vai com qualquer um e acaba aceitando qualquer coisa! Pra ele tudo serve tudo está bom, gruda nas pessoas como carrapatos. Alguns parecem vampiros, sugam tudo que podem do outro: amor, proteção, segurança, ajuda, energia, compreensão, saber.

Tenta daqui e dali se fazer amar e nunca está satisfeito ou feliz com o amor que recebe. Para ele é sempre pouco. Sua insaciabilidade e voracidade acabam por deixá-lo mais só, por que é muito sufocante para as pessoas relacionar-se com ele.

Egocêntrico?

É comum justificar que sua dificuldade em fazer dieta é por que… Quando… Se…; enfim, é necessário que o mundo mude o seu curso, para que se trate. É o mundo que tem de se adaptar a ele, e não ele com a sua doença no mundo.

 No desenvolvimento da doença, aprendemos a buscar alívio para todos os nossos conflitos na Comilança Compulsiva.

 Comer compulsivamente é ser impulsionado por uma vontade incontrolável, sem crítica; e, à medida que temos o corpo deformado pelo acúmulo de banha, enfrentamos um enorme conflito, que não sabemos como resolver efetivamente, porque a experiência própria ou alheia aponta sempre para o fracasso.

 Por tudo isso é por nos sentirmos incapazes, impotentes para resolvermos efetivamente o problema (e somos sozinhos), seguimos nosso caminho, nos atolando cada vez mais na comilança. Nessa altura de nossas vidas, somos muito infelizes; e todos que convivem conosco, companheiros, pais, filhos, amigos, sentem-se envergonhados da nossa companhia.

  Você pode estar se perguntando novamente: como é possível uma pessoa viver tudo isso sem se dar conta do que está lhe acontecendo? É simples: nós usamos mecanismos de defesa que não nos permitem sozinhos, ver e identificar o que precisamos mudar. São mecanismos neuróticos que servem para nos proteger de sofrermos toda a dor que esse quadro nos proporciona; permitindo, assim, que fiquemos como estamos.

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