O preço do conforto

Você já parou para pensar qual é o preço que paga-se pelas facilidades da vida confortável? Abaixo uma texto que nos convida a reflexão.

 Por volta dos meus dez anos, na minha casa tinha geladeira, chuveiro elétrico, televisão, batedeira, rádio, ferro elétrico e enceradeira. Num certo período não tinha telefone. Recado, só pessoalmente. Poucos anos antes, na casa da minha avó tinha as mesmas coisas, exceto televisão e batedeira. Tinha também liquidificador.

 Com a melhora do salário mínimo em relação ao dólar, o aumento do poder aquisitivo da população e crédito fácil, a presença de eletrodomésticos tornou-se mais acessível à população. Quase todos podem ter motocicleta, máquina de lavar, TV com controle remoto, telefone celular, e muitos têm carro com vidro elétrico.

O preço dessas comodidades é a necessidade de frequentar academias de ginástica para reverter a alta incidência e gravidade da obesidade. A minha avó pesava 46 quilos a vida toda, mesmo depois de ter tido onze filhos. Quando solteiras as suas filhas a ajudavam, e sempre teve empregada doméstica, mas lá tinha escovão para dar brilho ao assoalho, a roupa era lavada à mão, nada era descartável. Após o uso era preciso lavar para reaproveitar. Havia fogão e forno a lenha. Não tinha spray autolimpante. Moía carne com a força do braço. Doces e biscoitos eram feitosem casa. Matava-se e depenava-se o frango. Havia seis quartos, escadas, jardim e quintal grandes para serem limpos, com muitas árvores e plantas. Íamos a pé a uma chacrinha que vovó possuía, a uns5 km, aonde plantávamos um pomar. Não havia calorias suficientes para suprir, gastar nas tarefas domésticas e engordar, embora a minha avó quisesse ganhar peso, pois admirava a “fofura” de sua irmã.

Andar de carro, de elevador, usar vidro elétrico, controle remoto na TV, máquina de lavar e telefone celular nos impedem da gastar energia. Estamos nos tornando uns inválidos. Não damos um passo a pé, e quem não faz o serviço doméstico de limpeza precisa comer muito pouco para conseguir manter o peso. A nossa fome é do tempo das cavernas e o acesso a comida é fácil e farto, com montes de calorias em recheios, molhos, gorduras, açúcar e porções gigantes. Como fazer para não ultrapassar os limites, considerando que o controle da fome é igual ao de nossos ancestrais que corriam de onças e leões?

Penso em como explicar o motivo para a maneira escandalosa com a qual as pessoas estão engordando. Repito que fotos antigas quase não vemos pessoas obesas. Os estudantes iam a pé para a escola, mesmo que tivessem de caminhar 30 ou 40 minutos. Muitos nadavam nas férias e não saíam de cima da bicicleta. Brincar de correr nas ruas era costume local. Não é de se estranhar que os estudos mostrem que as crianças de hoje são maiores, porém muito mais fracas fisicamente e perderiam feio caso disputassem com seus pais ou avós meninos, num cabo de guerra. Como fazer para mudar isso? Produzirmos comida e confortos e não os utilizar?

Como criar coragem de largar o sofá e ir se mexer? Será preciso deixar a TV, o computador e o videogame e fazer uma visita a pé a algum amigo, dar uma volta na praça, deixar os alimentos industrializados e privilegiar saladas e frutas. O sabor está nas gorduras, assim é um desafio abandonar os alimentos mais calóricos.

Estamos alargando o nosso olhar, pois as nossas crianças estão a cada dia ocupando maior espaço. Não só elas, mas principalmente os adultos. Olhando uma foto do Corpo de Bombeiro nos Estados Unidos, impressionou-me a largura daqueles homens. Caso seus antecessores pesassem 80 a 90 quilos em 1,85m de altura, os atuais pesam mais de 120 quilos. Pessoas com mais de 150 quilos não são incomuns. A frequência da obesidade já não causa espanto, mas sim estranheza quando se pensa o IMC – Índice de Massa Corporal, estabelecido pela Organização Mundial de Saúde, pois metade da população está acima do peso estabelecido por esta referência.

Decretar que pesar mais não faz mal a saúde, ou mudar os critérios de peso adequado, não influenciam no resultado. Estamos ampliando os modelos e manequins, mundo afora. Será que os avanços da civilização estão condenados? Isso se as montanhas de lixo e entulho produzidos e a poluição não nos direcionar novamente para as cavernas. Lá não mais teremos de correr dos mamutes, pois já acabamos com eles. E que não acabemos com nós mesmos, numa patética autofagia. Minha teoria é simplista, mas que tem lógica, isso tem.

Os ganhos em longevidade estão escapulindo pelas mãos da obesidade. Precisamos mudar rápido, pois apenas agindo diferente teremos outro resultado. Começando hoje, amanhã já será o segundo dia.

 Texto de Mara Narciso adaptado por

 Éricka Heringer Santos

Psicóloga Clínica

CRP 30205/04

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